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Lembrança de um dia triste

Quarta-feira, por volta das 20:30, 1° de novembro de 1995. O que sinto quando lembro desse dia, é um misto de raiva, dor, saudade, tristeza, revolta...
Nunca esqueci aquele olhar, e por muito tempo me senti culpada por não ter percebido, que ela não estava bem, que estava prestes a cometer uma loucura. Todos os dias eu a acompanhava, até o quintal, onde ela verificava se estava tudo trancado e depois soltava os cães. Nesse dia ela não me chamou, mas eu fui mesmo assim, e a encontrei no deposito procurando por alguma coisa. E eu perguntei: mãe o que a senhora ta procurando? _ ela disse: nada minha filha, vá deitar que já estou indo... Mas eu continuei ali parada, feliz, dizendo que seria ótimo aquele fim de semana, porque teríamos um feriado prolongado. Então, ela chegou perto de mim, e encostou o dedo no meu nariz, me deu um beijo, e disse preguiçosinha e sorriu. Depois disso eu sai. Só que eu não fui deitar, fiquei na sala, esperando por ela. Não sei quanto tempo se passou, eu cochilei e quando acordei senti um cheiro forte, mas não sabia de que. Fui até a cozinha e não tinha nada no fogo, olhei no quintal, tudo calma, então eu voltei pra sala. Mas logo, eu escuto um barulho tão horrível que eu não esqueci e não vou esquecer nunca. Eu corri pra ver o que era. Ela estava deitada na rede, embaixo da mangueira, morrendo... O barulho que eu ouvira, era ela passando mal... tinha ingerido veneno. Quando eu cheguei perto, ela me abraçou chorando, acho que se arrependeu. Ai perguntei, o que ela tinha tomado e ela disse, fazendo o maior esforço do mundo, que não dava pra responder. Eu gritei por meu pai, mas era tarde... Ela morreu ali nos meus braços... Ninguém sabe o que eu sofri depois, lembrando, sentido aquele cheiro, ouvindo aquele grito horrível. Naquele dia eu pedi pra morrer também, eu senti uma dor tão forte, que parecia que meu coração ia explodir. Por muito tempo eu senti raiva, saudade, culpa, medo... tudo junto. Eu queria muito sentir só saudade e chorar, até não ter mais forças e assim expulsar todo o sentimento ruim, toda magoa, toda a dor, tristeza, desespero, tudo... E poder sentir só saudade da minha mãezinha. Mas eu não conseguia, eu queria ser dura, queria ser forte e não queria ser vitima de nada... Passei alguns dias com medo de dormir, com medo de ficar naquela casa... era como se aquela casa, não fosse a minha, tudo era estranho... Nas horas que eu estava lá dentro, eu andava de um cômodo para outro, como se procurasse algo, ou fugisse de algo. Então eu voltava para o meu quarto, que não parecia mais o meu quarto, e para um monte de lembranças e angustias que só eu sabia...
No momento do desespero, os suicidas não entendem que não há mal que o tempo não cure. Não refletem sobre a dor que seu gesto extremo causará naqueles que os amam, não levam em conta suas atitudes sobre os que ficam e que são outras vitimas de seus atos impensados.
Mas o tempo passou... Passou rápido para mim. Quando se tem 15 anos e a mãe se suicida, ou a gente amadurece, pira, ou então, segue vivendo esperando que um dia as coisas melhorem... Eu preferi amadurecer, e consequentemente esperei que as coisas melhorassem...



Perguntas, respostas e dicas | Achando as palavras procuradas

Autor:  True Love Is eternal Love
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